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Por que nós, homens héteros, pensamos sexo da maneira errada

Atualizado: Ago 21

Primeiramente, agradecemos já de início você que está lendo este texto além do título. Isso mostra que você está disposto(a) para uma discussão aberta, saudável e evoluída, sem julgamentos feitos direto pela 'capa'. E é isso que desejamos, sempre.


Segundo, imaginamos que você que começou a ler este artigo, deve estar fazendo isso por um destes três motivos:


  • Discordou de cara do que diz a chamada, mas está curioso para saber do que se trata especificamente.

  • Não tem uma opinião completamente formada a respeito e está em busca de construir a própria.

  • Concordou de cara com o título e deseja continuar lendo para analisar se é o que pensa, e/ou se identificar mais com o conteúdo e até compartilhá-lo.


Talvez ainda haja uma quarta, quinta situação... Mas independentemente de qual tipo de leitor você seja, buscamos, mesmo, agregar aqui uma perspectiva pouca discutida (menos do que o ideal) até os dias de hoje: a unilateralidade com que enxergamos o sexo entre homem e mulher, com a valorização do prazer masculino em detrimento do prazer feminino.


PAUSA...


Aliás, também pode ter chegado até este texto o leitor que pensa sexo como um meio apenas de se reproduzir. Se esse é o seu único objetivo no ato sexual, já avisamos ainda no começo que provavelmente esse não será o texto que deseja ler. Mas se ficar até o fim, ficamos muito gratos também e adicionará um novo ponto de vista ao seu repertório.


VOLTANDO...


É de se imaginar que a abordagem de um tema como esse levante e possivelmente continuará levantando vários questionamentos. Porém, acreditamos na sua consideração e paciência para ler tudo até o final e, a partir daí, escolher se vale a própria reflexão ou não.


Então, vamos lá.


A grande explicação do por que vemos demasiadamente o sexo considerando mais a satisfação do lado masculino do que o lado feminino se deve às religiões, e em especial, à religião cristã, que possui a maior parcela de adeptos no mundo todo.


Nas religiões, há o costume de ser 'ensinada' e 'aconselhada' a transa voltada única e exclusivamente à reprodução, sem aprofundar o lado do prazer especificamente. Porém, sabemos que, para que a reprodução se concretize de maneira mais provável, a parte que deve ter mais prazer é a do homem.





Por isso, onde quer que você olhe, verá majoritariamente no mundo do entretenimento e cultural a relação sexual entre um homem e uma mulher terminar sempre depois que o cara tenha conseguido ejacular e não a moça.


Nós, homens, querendo ou não admitir, somos formados numa sociedade patriarcal, em que mantemos o poder primário e predominamos, ao longo de toda história, em funções de liderança política, autoridade moral, privilégio social e controle das propriedades. E, como pode observar, quando se trata de sexo, não é diferente...


Para evidenciar isso tudo, não vamos entediar você com mais histórias lá dos tempos antigos para mostrar como desde aquela época nossos prazeres (heterossexuais) e vontades são muito mais privilegiados em detrimento dos prazeres e vontades das mulheres. Apesar de ser totalmente verdade desde então.


Em vez disso, vamos trazer situações muito mais próximas da nossa realidade e dia a dia para ficar mais fácil. Por exemplo, acreditamos que você já tenha reparado que ainda nos dias de hoje, ao ler livros, assistir a filmes e séries, e até dar uma conferida naquele pornozinho, a relação sexual retratada entre homens e mulheres só termina no momento em que o primeiro goza, e não a segunda pessoa mencionada aqui.


Na verdade, estamos extraindo exemplos da ficção e entretenimento, mas poderíamos muito bem nem chegar a ir por esse caminho. Apostamos que grande parte do seu círculo social (para não dizer ele todo) também seja assim: na imensa maioria dos casos, amigos, familiares e até na própria relação heterossexual, a transa só acaba quando nós, homens, ejaculamos e não a mulher.


(Vale ressaltar que se a sua relação sexual não é dessa forma, havendo um bom equilíbrio do prazer de ambos, parabéns. Já está acima da média, e continue assim. Também não fazemos mais do que a obrigação.)


Aliás, se mesmo depois desses exemplos, você ainda continua duvidando de que o sexo é tratado de modo unilateral em favor do homem, te convidamos a dar uma olhada em pesquisas e mais depoimentos de homens e mulheres que vivem nesse tipo de relação amorosa e sexual.


Melhor: pergunte para a sua parceira, se tiver uma; para uma amiga, se não tiver parceira; ou qualquer mulher com quem tenha liberdade para tal.


Mas agora, você já se perguntou?


  • Por que tem de ser desse jeito?

  • Por que tem de se manter desse jeito?

  • Por que não mudar?

  • Por que não pensar no prazer feminino?

  • Por que não terminar a relação sexual quando a mulher tem o orgasmo em vez de nós?


Poderíamos continuar extensamente listando vários 'porquês', se quiséssemos.


De qualquer forma, vamos resumir isso em uma pergunta, para ajudar a quem não se moveu quanto a este tema começar a se mover.



Por que o prazer da mulher é importante no sexo?



Começaremos com alguns dados assustadores:


  • As mulheres heterossexuais são o grupo que chega menos vezes ao orgasmo: somente 65% das vezes que mantêm relações.

  • Nós (homens heterossexuais) somos o primeiro lugar: a porcentagem de orgasmos é de 95%.

  • Apenas 16% das mulheres dizem ter prazer feminino na penetração.

  • 74% das envolvidas no estudo declaram ter orgasmos sempre que se masturbam.

  • Não mais que 43% delas conversam abertamente com seus parceiros e parceiras (nesse caso) sobre o tema.


Os dois primeiros tópicos vêm de um estudo realizado entre diferentes universidades norte-americanas e publicado no periódico Archives of Sexual Behavior, em janeiro de 2018, enquanto os três últimos pontos se tratam de uma pesquisa realizada aqui no Brasil. O levantamento foi feito pela Prazerela - escola que apoia as mulheres a empoderar seus corpos por meio do prazer feminino -, também em 2018.





Citamos esses dois estudos apenas, porque acreditamos que já devem ser o suficiente para nos fazer sair da cadeira e mudar essa realidade de alguma forma. Mas se passarmos mais tempo procurando, com certeza há mais dados que reforçam esse fato.


Nós, homens héteros, já ficamos abalados quando (raramente) acontece de não chegarmos ao orgasmo no sexo ou nem mesmo ter a ereção, imagine se tivéssemos esses números baixíssimos de 'aproveitamento' durante a transa. Apostamos que todos também ficaríamos revoltados, não?


Aliás, também é importante lembrar que isso tudo fica ainda mais estranho quando nos dizemos estar numa relação 'amorosa', não é mesmo? Se nós realmente amamos a nossa namorada, esposa ou algo nessa linha, por que esse sentimento tão precioso ainda não nos fez com que pensássemos na felicidade, prazer e vontade da nossa parceira durante a transa?


Ao construirmos uma relação equilibrada no maior número de aspectos possível, criamos algo muito mais bonito e proveitoso para ambas as partes envolvidas, não acha? Ou tudo bem para você largarem mão do seu prazer nessa parte da vida? Para nós, não.


E mesmo assim... Mesmo se nós não possuímos uma relação mais próxima e profunda com a parceira, isso não quer dizer que nessas ocasiões 'devemos' considerar só o nosso lado. Pelo contrário...


Se a gente está se relacionando sexualmente com alguém, mesmo que você não queira admitir, há uma mínima relação de afeto, empatia e (pelo menos) bilateral naquele momento. Se desejamos que ela nos entregue prazer, o mínimo que devemos fazer é pensar em oferecer o mesmo prazer a ela também.



O que sentir prazer no sexo muda na vida de alguém?



Essa pergunta é aplicada a todas as pessoas, mas neste caso vamos pegar a situação generalizada para mostrar como as mulheres, que são quem possuem baixos números para chegar ao orgasmo, podem ter um impacto super positivo ao passarem a ter mais prazer na transa.


(Sempre bom lembrar que o que falamos aqui não consideramos verdade absoluta e nem estamos apontando como as mulheres de fato deveriam sentir prazer e tudo mais. Isso é escolha de cada uma delas, e ninguém melhor do que elas para opinar com mais propriedade a respeito. Boa parte do que é tratado neste texto se baseia em estudos e faz parte da reflexão que propomos aos homens héteros em especial.)


Na pirâmide de Maslow, por exemplo, sexo é tratado como uma necessidade fisiológica, mostrando que o (prazer no) ato é muito mais do que uma 'experiência de luxo', mas, sim, um dos aspectos instintivos ligados à sobrevivência da espécie.





Agora, o que acontece se deixamos de praticar algo que é tido como essencial à nossa sobrevivência?


O que acontece se praticamos esse 'algo', mas fazemos mal feito pensando só num lado dos envolvidos?


Olha, morrer podemos não morrer, mas que isso afeta a qualidade da nossa vida, afeta.


Sara Sandberg-Thoma, investigadora de Ohio State University, explica que uma vida carente de sexo ocasiona deterioro mental, emocional e ainda pode provocar depressão ou mesmo ideias suicidas.


Além disso, gozar também está diretamente ligado a poder, seja de espaço, fala e afins. Nós, homens, que temos durante tanto tempo nossa sexualidade explorada e estudada, (ainda) predominamos em grande parte dos campos da vida. Ou você acha tudo isso mera coincidência?


Quem não ganha mais confiança, não tem uma autoestima mais alta e não se sente mais seguro para o resto do dia, quando se tem uma relação prazerosa e de satisfação mútua?


Agora, experimente ter inúmeras transas não inteiramente prazerosas ou não tão satisfatórias, para ver se isso não nos afeta, frustra e assombra dali em diante.


O ponto é que temos de progredir, caminhar rumo ao desenvolvimento como sociedade. Faz parte da missão de nós, homens héteros, reconhecermos mais esse privilégio construído equivocadamente durante a história e darmos um passo à frente.


Se queremos intensamente que a nossa amada (ou não amada) tenha sucesso nas várias áreas da vida, também deveríamos fornecer a ela o espaço mais do que merecido do real prazer ao longo da relação sexual. Tem dúvida de como fazer ou como começar a praticar isso?



Recomendações



Neste ponto do artigo, vamos listar alguns caminhos para começar a abrir espaço para o prazer da sua parceira no sexo.


Um deles, e o principal, é dar mais voz a ela no que ela quer e gosta durante o ato sexual.


Se ela não puxar a conversa, nós devemos. Muitas vezes, a própria parceira não reflete sobre onde está o espaço dela de prazer nesse aspecto da vida. E a culpa, obviamente, não é dela.


Nossas bolhas não costumam mostrar às mulheres que elas têm lugar em várias áreas ainda, infelizmente, sejam pessoais ou profissionais. Então, ao se dar conta de que nós percebemos isso antes dela, é mais do que nosso dever levar isso a elas.


Outro caminho é pesquisar mais sobre o assunto.


Seja antes, durante e depois desse tipo de conversa com a parceira, procure entender melhor a respeito examinando por você mesmo. Vá atrás de livros, especialistas e influencers que abordam já belamente este tópico. Você vai se surpreender com a quantidade de pessoas já envolvidas no tema também em busca da equidade nesse lado da vida.


Antes de finalizarmos essa reflexão, saiba que nós, Poder do Clique, não nos gabamos de grandes entendedores de como funciona o prazer feminino na relação sexual e como isso é de fato conquistado.


Tudo que estamos falando, sugerindo e pedindo aqui, acaba sendo um grande 'chamado' para os homens héteros principalmente: abramos nossa mente e o diálogo para este tema. Mas para realmente entender tudo isso, é mais do que fundamental buscar os especialistas da área.


Acha isso difícil de encontrar?


Então, vamos deixar aqui algumas sugestões de influencers que, por discutirem e trazerem frequentemente entendedores da saúde, bem-estar e prazer feminino, desenvolvem muito melhor essa experiência.


Segue:


  • @maria.chantal (Instagram)

  • @prazerela (Instagram)

  • @alinediniz (com quadros no YouTube)

  • @vaginasemneura (Instagram)

  • @fiqueamiga (Instagram)


Há muito mais páginas do que as cinco indicadas aqui, mas isso já é um começo.


Portanto, comecemos a entender o outro lado neste tópico e em vários outros, porque já estamos muito mais do que atrasados.


Adotemos o pensamento mais adequado e equilibrado.


Sigamos crescendo!


Nota: este artigo teve a colaboração importantíssima, antes mesmo de ir ao ar, com sugestões de ajustes da Tatiely Freitas e revisão de Deborah Fernandes e Bárbara Martins, todas mulheres incríveis.


#PoderdoClique #Reflexões

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